Renata Alves, Mirella Sena e Maristela Just: série ‘Marcas’, da TV Globo, mostra quem eram vítimas de feminicídio antes de virarem estatísticas da violência
Série ‘Marcas’, da TV Globo, conta histórias de vítimas de feminicídio Em 2025, o Brasil registrou quatro feminicídios e dez tentativas de assassinatos...
Série ‘Marcas’, da TV Globo, conta histórias de vítimas de feminicídio Em 2025, o Brasil registrou quatro feminicídios e dez tentativas de assassinatos contra mulheres por dia. São 1.470 mães, filhas, irmãs, sobrinhas, amigas, companheiras de trabalho que foram mortas no ano passado, de acordo com o Ministério da Justiça. Neste sábado (7), véspera do Dia Internacional da Mulher, celebrado no domingo (8), a TV Globo estreia a série especial “Marcas”, que traz histórias de mulheres vítimas de feminicídio antes de se tornarem estatísticas da violência (veja vídeo acima). Os episódios são exibidos nos telejornais Bom Dia PE, NE1 e NE2 até o dia 14 de março. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE No primeiro episódio, familiares e amigos de três vítimas relatam como suas vidas mudaram após os crimes, compartilhando detalhes sobre o cotidiano, o trabalho e a história dessas mulheres, cuja ausência será para sempre sentida. São elas: Renata Alves, 35 anos Mirella Sena, 27 anos Maristela Just, 25 anos O primeiro episódio também conta a história de Luísa Barros, de 57 anos e sobrevivente de uma tentativa de feminicídio. Ela, que fazia tratamento de câncer, foi espancada com um bastão de madeira pelo marido, Numeriano Luiz de Sá, que na época era secretário de Esportes e Lazer de Calumbi, no Sertão. Renata Alves Renata Alves tinha 35 anos quando foi morta Reprodução/WhatsApp A administradora Renata Alves foi morta com um tiro na testa pelo namorado, João Raimundo Vieira da Silva de Araújo. O crime aconteceu no apartamento da vítima, em Campo Grande, na Zona Norte do Recife, no dia 6 de agosto de 2022. "A ausência... a gente vai dormir e acorda pensando nela. Com o tempo diminui um pouco, mas a dor não passa, principalmente pela forma que ela foi tirada de nós, que foi tirada a vida dela. Era uma mulher que adorava viver, permitia-se viver e ser feliz", contou Kátia Alves, mãe de Renata. Renata tinha 35 anos, era apaixonada por carnaval, viagens e vivia cercada de amigas. A mãe recorda uma fala do outro filho, Rafael, que diz que a irmã parou na idade em que morreu. "Chega o aniversário dela e, como diz Rafael, o irmão mais novo dela, um ano e dois meses de diferença, 'ela parou naquela idade'. Não vai ficar mais velha que eu. Não vou ver minha filha ficar velha. O aniversário dela dói muito, dói mais", desabafa. No dia 26 de fevereiro, o caso de Renata Alves teve uma atualização. João Raimundo foi condenado a 71 anos, 2 meses e 26 dias de prisão. Ele foi julgado por feminicídio e outros crimes após dois dias de júri popular. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem. Mirella Sena Fisioterapeuta Mirella Sena foi assassinada em flat em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife Reprodução/TV Globo No dia 5 de abril de 2017, Mirella Sena foi morta a facadas pelo vizinho, Edvan Luís da Silva, no flat onde morava em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife. Em Vitória de Santo Antão, onde passou parte da infância e adolescência, há em sua homenagem um banco vermelho, símbolo da luta contra o feminicídio, e uma placa com a foto dela, que tinha 28 anos quando morreu. Os pais, Sueli e Wilson Araújo, se emocionam ao ver o memorial e dizem que, mesmo quase dez anos depois, a dor permanece. Eles passaram a dar palestras em escolas para reforçar a luta contra o feminicídio. "Dói muito, todos os dias. Dói muito. Logo ela, que era uma menina que amava viver. Um futuro, tantos sonhos ainda pela frente e, de repente, é como se tivesse arrancado da gente. É uma dor que não tem explicação", diz a mãe. Mirella estava no melhor momento da vida profissional. Fisioterapeuta por formação, trabalhava como consultora de uma grande empresa e tinha uma rotina intensa, com viagens e compromissos. Amava música, festas e tinha uma enorme alegria de viver. "É uma dor que não passa, uma ferida que não cicatriza e que, a todo momento, a gente lembra. A ausência dela realmente fez a gente mudar. Para a gente tentar, de alguma maneira no dia a dia, plantar uma sementinha. Para que essa semente germine para a gente conscientizar", conta o pai. No dia 5 de agosto de 2019, Edvan Luiz foi condenado a 30 anos de prisão pelo estupro e assassinato de Mirella. A data da morte dela, 5 de abril, passou a ser lembrada como o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem. Maristela Just Maristela Just tinha 25 anos quando foi morta pelo ex-marido Reprodução/TV Globo A estudante de sociologia Maristela Just tinha 25 anos quando foi morta pelo ex-marido, José Ramos Lopes Neto, que não aceitava o fim do relacionamento. No dia 4 de abril de 1989, ele invadiu a casa do sogro e se trancou em um dos quartos com Maristela e os dois filhos do casal. O homem disparou três tiros contra a vítima, que morreu no local. O filho caçula, Zaldo Just, tinha 2 anos na época e foi atingido na cabeça. A filha mais velha, Natália Just, de quatro anos, levou um tiro no ombro. Os dois perderam a mãe e, por pouco, não perderam também a vida. "Levei um tiro na cabeça, no centro da cabeça aqui, transfixante. Entrou aqui e saiu aqui do lado direito. Segundo o médico, o neurologista que me atende e me acompanhou por toda a vida, por ter saído do lado direito, me afetou do lado esquerdo do corpo", contou Zaldo. Natália rompeu ligamentos e nervos do braço direito. Mesmo com fisioterapia, ela não consegue fazer alguns movimentos com a mão direita. Além da tragédia, os irmãos perderam a convivência diária: Zaldo foi criado por uma tia, enquanto Natália ficou sob os cuidados da avó. Hoje, Natália tem 41 anos, 16 a mais que a mãe quando teve a vida interrompida. "Apesar de ser pequena, eu lembro dela, eu lembro do dia, lembro do que aconteceu. Não é só a minha mãe que vai embora. Naquele dia, eu perdi a minha família", disse Natália. Os filhos tentam imaginar como seria se Maristela ainda estivesse viva. A morte precoce de Maristela tirou não apenas uma mãe, mas também uma irmã, filha e cunhada. A perda transformou a vida da família. "Quando ela foi assassinada, já estava na faculdade, na metade do curso. Acredito que ela estaria formada, criando eu e Nathália sozinha, e futuramente viria a se casar novamente. Morreu no ápice da vida. Quando estava com 25 anos e ainda ia começar a viver, foi tirada a vida dela. Não foi só uma mãe, foi uma irmã, uma filha, uma cunhada, tudo num pacote só", conta o filho. José Ramos Lopes Neto foi condenado a 79 anos de prisão no dia 2 de junho de 2010, 21 anos após ter cometido o crime. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem. Luísa Barros Luísa Barros teve várias fraturas no rosto e dois dentes quebrados após ser espancada em apartamento no Recife Reprodução/TV Globo Luísa Barros, de 57 anos, foi espancada pelo então marido, Numeriano Luiz de Sá, de 64 anos, com um bastão em um apartamento da família no Edifício Alfredo Bandeira, localizado na Rua da Aurora, no bairro de Santo Amaro, no Centro do Recife. Ela foi agredida após se abaixar para pegar um remédio. Na época da agressão, Luísa fazia tratamento contra câncer no fígado. No dia do crime, em 9 de dezembro de 2025, ela foi resgatada por um vizinho, o jornalista Márcio Santos Silva, que mora no andar de cima e ouviu os gritos desesperados da vítima. "Foi um milagre de Deus, foi a ajuda que eu tive do meu vizinho para me socorrer naquele tempo. Então, meu coração é só gratidão a Deus e a essa pessoa que me socorreu", disse Luísa. Após a agressão, Luísa ficou internada no Real Hospital Português, no bairro do Paissandu, na área central da cidade. Ainda se recuperando da agressão do companheiro com quem dividia a vida há 25 anos várias, ela teve várias fraturas, recebeu 40 pontos e teve dois dentes quebrados. "Eu ainda vou ter que aprender a viver para mim, a descobrir o que eu quero fazer, a descobrir quem sou eu porque, durante todo esse tempo, a minha vida era dedicada a ele, aos planos dele, ao que ele queria [...]. A gente nunca sabe quando começa, quando acontece e quando termina, mas a gente precisa identificar e precisa parar [a violência]", declarou Luísa. O agressor, que na época era secretário de Esportes e Lazer de Calumbi, no Sertão de Pernambuco, foi preso no mesmo dia por tentativa de feminicídio e exonerado do cargo. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem. Renata Alves, Mirella Sena e Maristela Just foram vítimas de feminicídio. Suas histórias foram retratadas na série Marcas, da TV Globo Arte/g1 Atendimento para mulheres vítimas de violência No Recife, mulheres vítimas de violência podem receber acolhimento, atendimento multidisciplinar e orientações de profissionais especializados nos seguintes locais: Centro de Referência Clarice Lispector: Rua Doutor Silva Ferreira, 122, Santo Amaro (atendimento 24 horas); Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector: Avenida Recife, 700, Areias (atendimento de segunda a domingo, das 7h às 19h); Salas da Mulher em cinco unidades do Compaz — Eduardo Campos (Alto Santa Terezinha), Ariano Suassuna (Cordeiro), Dom Hélder Câmara (Coque) e Paulo Freire (Ibura). Além disso, existe um Plantão WhatsApp, com funcionamento 24 horas, no número (81) 99488-6138. Saiba como denunciar Em Pernambuco, as denúncias de violência contra mulher podem ser feitas através do telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana e feriados; A Polícia Militar pode ser contatada pelo 190, quando o crime estiver acontecendo; Também é possível, no Grande Recife, fazer denúncias pelo Disque-Denúncia da Polícia Civil, no número (81) 3421-9595; O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também pode ser acionado de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h, através de uma ligação gratuita para o número 0800.281.9455; Outra opção é a Ouvidoria da Mulher de Pernambuco, que funciona pelo telefone 0800.281.8187; Os endereços e telefones das Delegacias da Mulher podem ser consultados no site do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias